terça-feira, julho 11, 2017

Florence Syndrome

(...)
O que era preciso era continuar. Continuar a mentir o mais perfeitamente, sem qualquer deslize, usando todos os recursos da imaginação, mas agora sem o antigo prazer de derrotar a realidade, antes uma angústia cada vez maior a crescer-lhe no peito, o que o obrigava a procurar a alívio nos químicos que minuciosamente doseava, porque nada devia transparecer na sua cara que o pudesse trair. Era preciso mentir sobre a mentira e continuar. Sentia-se esgotado, mas a paixão fazia-o continuar. Se não há uma verdadeira vida também não pode haver uma verdadeira morte. Se calhar teria sempre de continuar. Este pesadelo fê-lo estremecer e abrir os olhos que julgava abertos. Escurecera. Procurou o interruptor do candeeiro e uma luz azulada encheu o quarto. Que horas seriam? Ela não devia tardar.
Levantou-se de um pulo, abriu as torneira do duche, foi à cozinha buscar um copo de água e, de pé, engoliu quatro comprimidos. Ele ia aguentar. Nada era verdade. A água corria. Ele tinha de continuar.

“O que amamos está condenado a morrer. E, no entanto, continuamos como se o não soubéssemos.”
Pedro Paixão




Passage.
"Nada é inventado além do que está latente no nosso cérebro,
onde o mundo, por maior que seja, não tem segredo que ele não transporte.”


(tristan reveur)

Gustave Vigeland Escultura

Gostava de cantar a alguém uma canção de embalar,
sentar-me a seu lado, e ficar sossegado.
Gostava de embalar-te murmurando uma canção,
estar contigo nos meandros do sono.
Ser a única pessoa em casa
a saber que a noite está fria.
Gostava de ouvir cá dentro e lá fora,
ouvir-te,  ouvir o mundo e os bosques.
Os relógios tocam a rebate,
e podes ver o tempo a escoar-se.
Ao fundo da rua um estranho passa
e incomoda o cão de um vizinho
Por trás, o silêncio. Pousei os meus olhos
em ti como numa mão aberta,
e eles prendem-te ao de leve e deixam-te ir,
quando algo se move no escuro.


Rainer Maria Rilke

SE...!!!

 Somos tão pequeninos e a vida também o é, se nos distrairmos a vida 
já passou e nós ainda estamos a espera do melhor momento
(Dolores)






Que Fazer Contigo no Meu Coração







a minha boca ficou no teu pescoço
nesse ponto nessa marca nesse teu
jeito de morderes as palavras, dança
nos braços da tua quentura, sensualidade
de dizeres amanhã, hoje, ou nunca.
nunca. a tua marca em tudo o que fazes,
dizes, mostras. a minha boca continua
no teu pescoço e os meus lábios procuram
aí. nesse ponto, nessa marca, na dança

das palavras, na quentura dos teus braços.
(The Perfect Stranger)





(Kodak Khrome)