quinta-feira, julho 13, 2017

A morte ficava-lhe tão bem

Ontem, estava a lavar a cabeça na cabeleireira, quando no rádio tocam os Keane.
Ainda disse: Os Keane, há tanto tempo que não os ouvia. 
O pensamento veio logo a seguir. As imagens voltaram. 
Aquela canção estava associada a uma tragédia na vida da minha família. Uma morte. Nunca podemos afirmar que o tempo passou e as feridas cicatrizaram. Não é assim. Desatei a chorar convulsivamente. A Cristina, que me lavava a cabeça parou, não percebeu. Eu queria explicar e não conseguia. Chorava e não parava. As lembranças eram de dor imensa, da morte de um jovem, muito jovem, num acidente estúpido nos Açores. Esse jovem era o noivo da minha filha Patricia. E as imagens que me voltaram, eram a imagem dela, ao receber a notícia. A maneira como caiu no chão e o corpo se enrolou. Os dias que se seguiram em que eu fiz tantos esforços para a manter viva e tentar ajudá-la a suplantar esse desgosto terrível. Dos dias seguintes à morte dele, ela não se lembra de nada. Do dia seguinte à morte, não se lembra nem do que fez, nem do que disse, nem onde estava. Uma amiga que a visitou chegou a pedir-lhe para ela não se matar. Eu ouvi. Já lá vão uns anos. Basta uma música, para voltarmos aquela imagem, aquele tempo. E o Ricardo era um menino d'oiro. Ela dizia que eram almas gémeas.

Ontem, eu não conseguia parar de chorar. Queria parar e explicar. A Cristina disse, qualquer coisa como: está tudo bem. Percebeu.
Espero que compreendam: somos pessoas, gente que sofreu imenso, com mortes que doeram a todos.
Vem ao caso, um mail que recebemos à cerca de cinco dias, creio, dando a "falsa notícia" de uma morte. Foi por mail. Recebemos um mail, dizendo ser do marido de uma blogger, dizendo o seguinte: "ela faleceu". 

 Ficamos em choque. Acreditamos. A nenhum de nós passou pela cabeça que fosse uma falsa notícia. Mas era. Sendo que essa pessoa se diz grávida e doente, nenhum de nós pensou que poderia a notícia não ser verdadeira. Doente e grávida e anuncia a própria morte? Impossível! Mas era possível. Um de nós disse que era possível, sim senhor. Era possível.


A explicação foi dada depois: "era para saber se vocês gostavam de mim". Isso mesmo. E eu anunciei a morte dela aqui, chorei, rezei, para a explicação ser essa: para ter a certeza que vocês gostavam de mim. No dia seguinte, no blog dela dizia para termos calma porque estava viva. É de doidos mesmo. Fica aqui a explicação para tudo o que se seguiu no blog "Amanhã estarás comigo no Paraíso". Foi tudo combinado entre as vítimas desta notícia falsa: gente que sofreu demais, gente que respeita a dor dos outros. Uma família.
Fingimos que estava tudo bem,  fingimos que eramos amigos dela e que compreendíamos, fizemos-lhe o funeral e dizíamos-lhe  que gostávamos muito dela. A ideia foi toda da pessoa de que ela mais gostava: o anjo. Esse nunca lhe perdoou, nem nunca acreditou na notícia. Tenho pena. Isso que foi feito, anunciar uma morte que não aconteceu não se faz. Nós nunca, mesmo nunca o faríamos.

Fica aqui a canção para ela, a tal senhora da Internet. E a explicação porque não podemos admitir que se brinque assim com a Morte: A morte dela e do filho que tem na barriga. É monstruoso.
Não vou ouvir, vou apenas deixar aqui a canção dos Keane. Para todos compreenderem o que é a dor de uma mãe pelo sofrimento da filha que ama acima de tudo e pelo  rapaz cuja morte transformou literalmente toda a vida dela.