domingo, julho 09, 2017

Amor Maior


Zangam-se. As palavras continuam a pairar na memória como facas  a enterrarem-se na carne, labaredas a queimar. Doença.
Tens de me dizer adeus, pensou ele. Ela não queria. Mas disse que sim. Assim tem de ser. A mão a afagar-lhe o rosto enquanto dizia a indiferença do adeus como se fosse. 

Encobre as lágrimas para que ele não as veja, pensa palavras de amor, enquanto diz a importância de ser quem é. A violência do adeus, para que tudo seja  mais fácil. Amanhã vou pensar nisto, hoje não posso. Sabe da falta que ele lhe vai fazer. Da importância que ele tem na vida dela, de quando vinha e a punha a rir quando lhe apetecia chorar. Curava-a quando estava doente. Podia dizer-lhe tudo isso. Não diz. Pensa ser obrigação dele saber. Ela ama-o ainda. Ela ama-o sempre.

Hoje não consegue dizer o bem que ele lhe faz.
Hoje o pior dia, diz ela. Ontem, o pior dia.
Ela sabe que, apesar de todos, só ele conta.
Por isso, ninguém nunca entenderá.
Ele vai ter de entender, pensa.
Sente como se ele tivesse morrido.
A partir de hoje não existo mais, diz.
Morri com ele.
Não existe fotografia, melodia ou dança que possam 
dizer o desgosto e tristeza que ela sente.