segunda-feira, outubro 31, 2016

Queimava



Ao toque parecia-me esboços de pequenos quadros, arrepio de afrontamentos, figuras dementes de crucificação de desejos. Ao toque vinha o canto adolescente, memórias de ações contraditórias. Eu temia o crescer do desejo, o corpo num turbilhão de sentidos novos. Os pensamentos a tolherem-me a respiração  por instantes. Não  podia crer que, aquele clima de tensão, ao descer pelo corpo abaixo, continuava a senti~lo lá dentro, como fogo, a espalhar-se. Como fogo a espalhar-se.

Ele tentou namorar comigo em segredo. Murmurava obscenidades ao meu ouvido. Queimava.
Um tipo já crescido, não um rapazinho, a arranjar oportunidades de encontrar-me sozinha, e de tentar convencer-me, a beijá-lo, a tocar-lhe, e as mãos a insinuarem-se debaixo das minhas cuecas. Queimavam. 
Diziam que era assim que se fazia quando se namorava. Eu queria qualquer coisa, sem saber o que era, sem lhe poder dar um nome. 
Senti aquela coisa rija de encontro às minhas pernas.
«O que é?»-perguntei-lhe
«Um dia, mostro-te»-respondeu

sábado, outubro 29, 2016

Pedro - O Amor é Isto




TheDagLab
Ontem o Pedro veio cá a casa. Tinha acabado de chegar de Amesterdão onde vive. É psicólogo clínico e um homem extremamente bonito. Conheço-o há muitos anos e namoramos cerca de dois. O Pedro chegou, levou-me até ao Alentejo, onde tem casa. Ele e eu partilhamos cama de vez em quando, sempre que se desloca a Portugal. Fechamo-nos no nosso mundo, só saindo de lá quando ele regressa a Amesterdão. São dias de pura loucura, sendo que os prazeres sexuais estão presentes.  Nós dois envoltos em chamas. Os nossos corpos. Ele ele ele.

Somos bons amantes além de sermos bons amigos. O Pedro tem 15 anos menos do que eu, mas, por vezes, é como se tivéssemos a mesma idade. Noutras vezes, é como se fosse o meu irmão mais velho. Casou-se, teve dois filhos. Divorciou-se. Hoje, vive com uma americana, realizadora de vídeos musicais. 

Eu e o Pedro conhecemo-nos quando eu procurava emprego, ele procurava um braço direito para assistente no Hospital Júlio de Matos, onde era médico. Começava, nessa altura a ser famoso, especialista em terapia de grupo, um método, nessa altura, pouco divulgado. Juntavam-se doentes, falavam as suas histórias, aquilo que os atormentava, sendo o médico o moderador, aquele que ouvia, estudava e ajudava a desbloquear emoções, traumas. Fiquei com o lugar.

O Pedro apaixonou-se por mim quase logo. Notei-lhe, logo de início o rosto, talvez curioso, talvez tímido, a olhar-me e, quando o surpreendia, baixava os olhos o mais depressa que conseguia. Eu era uma mulher sexualmente bem resolvida, experiente, sentia cada contacto da sua mão, por mais pequeno, como uma asfixia. Por isso, sem parar nunca de sorrir, compreendi e aceitei essa sensação de excitação e desejo, comuns a relações que começam. Tinha a certeza dos meus sentimentos que, apesar de novos, cresciam à medida que o olhava. Ambos sabíamos e nenhum de nós precisava daquela asfixia. Era imprudente. Desnecessária. Inevitável.

Na altura , o Pedro tinha uma namorada, um apartamento alugado perto das Avenidas Novas, onde se encontrava com  ela não sei quantas vezes por semana, ou por mês, não me interessava, sabia que mais tarde ou mais cedo,  ele seria meu. E foi! Tempos após termos iniciado o nosso romance, ele e a namorada foram passar alguns dias ao Norte. Penso ir oito dias, disse ele. Eu não disse que me incomodava imenso ele ir com ela, ao contrário, disse está bem. Achava não ter qualquer direito sobre ele, ainda. Passado dois dias voltou, apareceu lá em casa, apanhou-me pela cintura e disse-me: - tive de voltar, já não suportava as saudades.

Rompeu com a namorada. Durante dois anos vivemos um para o outro, sem nada mais do que um e o outro, em corpos, sexos, mãos, lábios, toques, risos e muita loucura.
Agarrou-me na mão e disse: - Sou feliz contigo. Disse.

Às vezes acordava-me durante a noite a dizer que queria acariciar-me, sabia que me apetecia muito e queria olhar para mim quando o gozo viesse.

Quando partiu senti-lhe a falta. Chorei dias seguidos. Não estava longe, a responsabilidade do cargo que ocupava impedia-o de deslocar-se a Portugal tanto quanto desejava. Fui ter com ele algumas vezes, voltava sempre deprimida, como se soubesse estar a nossa separação eminente. Não me parecia possível acabar tudo. Primeiramente, eu não quis ir viver para a Holanda.  Hesitei, no tempo de hesitação, ele casou-se com outra. Eu disse que estava bem, que me parecia natural, que fosse feliz. Seria melhor para ambos não estabelecermos contacto. Assim fizemos. Três anos depois, casei-me, porque sim, apenas porque sim. Nunca o esqueci.


Quando me telefonou, passados quatro anos, não me surpreendeu. Somos amigos, disse. Somos amigos, disse eu.

Até hoje, continuamos sendo amigos e amantes.
Nada mudou, apesar de tudo ter mudado.


Alentejo - Setembro, 2015

quarta-feira, outubro 26, 2016

Em Nome



Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei

Sophia de Mello Breyner Andresen in Dual