sexta-feira, julho 29, 2016

The Garden of Wounds


não há gritos obscenos nem apertos de mão 
existe o mote do amor os beijos em ondas de desejo
do ar irrespirável quando não estás em mim
de não saber de ti a promessa de existires para sempre
sem ti sou nada dedico-me a não ser tristeza
de ser aquilo que acreditava ser existe nada
lembro a tua voz  sou quase eu quase aí
sou eu tu quase aí lembro a tua voz


The Garden of Wounds- . Laura Makabresku 






segunda-feira, julho 25, 2016

Eclipse Total - Há um destino, mas nenhum caminho; aquilo a que chamamos caminho é a hesitação.










Os esconderijos são inúmeros, a salvação é só uma,
mas as possibilidades de salvação, por sua vez, são tantas
quantos os esconderijos.

Há um destino, mas nenhum caminho; aquilo a que
chamamos caminho é a hesitação.

(Franz Kafka)


Imagens de "Total Eclipse" de Agnieszka  Holland
Leonardo diCaprio como Arthur Rimbaud
David Thewlis como Paul Verlaine

sexta-feira, julho 22, 2016

Nothing stays the same




A minha mão parada, a caneta na mão à espera das palavras que não saem.
À luz morna do candeeiro vejo o teu rosto que me sorri, mesmo aqui. 
Sabes, digo, a última carta que te escrevi dizia que te amava.

hoje não tens ajuda, diz o que tens a dizer. diz como se fosses eu, dizendo-te coisas daquelas que se escrevem quando se bate forte com a cabeça, ama-se como se fosse iluminação, não sabendo o que se diz dizendo amo-te, amo-te, dizia-te.

Endereço errado, este endereço já não existe, eu ali a olhar como se isso fosse uma censura às minhas palavras. ENDEREÇO NÃO EXISTENTE.

desculpa, eu não sabia, teria escrito mais cedo, disse-te que não. disse-te que não, que até podíamos ser amigos, amigos qual quê, poderia alguma vez ser, quis acreditar, quis mesmo acreditar, podemos ser amigos, podemos.

Escrevi um dia a dizer-te a verdade: amo-te. Este endereço já não existe. Pensei erradamente talvez, talvez tu já não existas. E tu, aqui, a sorrir e digo: que parecidos que nós somos, ficámos parecidos com o tempo, é assim que sucede quando duas pessoas têm tanto em comum, os mesmos gostos, o cinema, os espectáculos, os livros, a conversa, os mesmos tiques, as mesmas olheiras, o mesmo sorriso e eu, ao mesmo tempo, a pensar que já não existo em ti.


dizes tu. vejo-te nos olhos, é isso que me dizes naquele preciso momento em que eu te estava a ver e a dizer amo-te, como antigamente, igual a quando tudo começou, e tu sabias que eu te estava a ver, e eu sabia que te iria ver, assim, dessa forma estranha de te dizer amo. 
o endereço deu errado. 
as minhas últimas palavras para ti foram de amor.
Fotos Laura Makanbresku 
Soundtrack: Madrugada,  Hands Up

terça-feira, julho 19, 2016

You and Me


Blue Valentine de  Derek Cianfrance
Vivemos na nota imparalela onde surgem os contadores de histórias, os encantadores de cobras e as serpentes emplumadas.
Esse outro mundo onde existes e eu sou eu e tu és ela, reflexos um do outro. vivemos os dois em fases de sequência encantatória, mais ninguém entra, e, por favor, não deixes que tu deixes de ser tu, nem deixes que outro tome o meu lugar. Porque tudo é simples e eu amo-te.

sexta-feira, julho 15, 2016

Je suis Nice - Cada um dos meus átomos a ti pertence também


Sei que sou imortal, sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um carpinteiro.

Cada um dos meus átomos a ti pertence também.

Sou divino por dentro e por fora, e santifico tudo o que toco ou me venha a tocar.

O que é um homem, afinal? O que sou eu? O que és tu?

As palavras passam por mim. Não sei.

Quem me dera traduzir as alusões aos rapazes e raparigas
mortos.
E as alusões aos velhos e às mães e às crianças prematura-
mente arrancadas aos seus regaços.

Que julgas que aconteceu aos novos e aos velhos?
Que julgas que aconteceu às mulheres e às crianças?

Sou amigo e companheiro dos homens, 
todos são imortais e insondáveis como eu; eles não sabem
que são imortais, mas eu sei.
(Walt Whitman)



quarta-feira, julho 13, 2016

Sed non satiata - Non Ti Muovere






Non Ti Muovere(2004)
Um filme de Sergio Castellitto
Bizarre déité, brune comme les nuits,
Au parfum mélangé de musc et de havane,
Oeuvre de quelque obi, le Faust de la savane,
Sorcière au flanc d’ébène, enfant des noirs minuits,

Je préfère au constance, à l’opium, au nuits,
L’élixir de ta bouche où l’amour se pavane;
Quand vers toi mes désirs partent en caravane,
Tes yeux sont la citerne où boivent mes ennuis.

Par ces deux grands yeux noirs, soupiraux de ton âme,
O démon sans pitié! verse-moi moins de flamme;
Je ne suis pas le Styx pour t’embrasser neuf fois,

Hélas! et je ne puis, Mégère libertine,
Pour briser ton courage et te mettre aux abois,
Dans l’enfer de ton lit devenir Proserpine!

Charles Baudelaire, 
Les Fleurs du Mal (1857)