terça-feira, junho 28, 2016

Carta a Junie - La Belle Personne





La Belle Personne, um filme de Christophe Honoré

“Je t’aime trop pour te laisser croire que je pourrais me passer de toi. Que tu me trompes, je m’en fous, tant que tu as la sincérité de me le dire. Que tu me caches, je m’en fous, tant que tu viens me retrouver, même pour une minute, même pour une seconde. La patience me va, et en t’attendant, c’est tout ton corps que je récite par coeur, tes bras si doux, tes lèvres, l’odeur de tes cheveux. Et tes genoux, dire que même de tes genoux, je suis amoureux. J’aime tout de toi.”
Carta de Nemours para Junie

Nemours - Luis Garrell
Junie - Léa Seydoux

segunda-feira, junho 20, 2016









Ontem foi um dia triste. 
Estava doente. Sem forças.
Diziam-me que estava calor.
Eu só tinha frio.
Saudades tuas.
Ou do ser já que não fui.

Veio-me à lembrança aquele poema
que tanto  gostas do E.E. Cummings

i like my body when it is with your
body. It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body.  i like what it does,
i like its hows.  i like to feel the spine
of your body and its bones,and the trembling
-firm-smooth ness and which i will

PS - Estive para mandar-to.
Arrependi-me.

domingo, junho 19, 2016

Carta para Dan







“Once upon a time, there was Candy and Dan. Things were very hot that year. All the wax was melting in the trees. He would climb balconies, climb everywhere, do anything for her, oh Danny boy. Thousands of birds, the tiniest birds, adorned her hair. Everything was gold. One night the bed caught fire. He was handsome and a very good criminal. We lived on sunlight and chocolate bars. It was the afternoon of extravagant delight. Danny the daredevil. Candy went missing. The days last rays of sunshine cruise like sharks. I want to try it your way this time. You came into my life really fast and I liked it. We squelched in the mud of our joy. I was wet-thighed with surrender. Then there was a gap in things and the whole earth tilted. This is the business. This, is what we’re after. With you inside me comes the hatch of death. And perhaps I’ll simply never sleep again. The monster in the pool. We are a proper family now with cats and chickens and runner beans. Everywhere I looked. And sometimes I hate you. Friday — I didn’t mean that, mother of the blueness. Angel of the storm. Remember me in my opaqueness. You pointed at the sky, that one called Sirius or dog star, but on here on earth. Fly away sun. Ha ha fucking ha you are so funny Dan. A vase of flowers by the bed. My bare blue knees at dawn. These ruffled sheets and you are gone and I am going to. I broke your head on the back of the bed but the baby he died in the morning. I gave him a name. His name was Thomas. Poor little god. His heart pounds like a voodoo drum.”
Candy

"Candy" de Neil Amfield
Heath Ledger (Dan)
 Abbie Cornish (Candy)

quinta-feira, junho 16, 2016

Etienne de Crécy - You





A Indiferença

Para Não Precisar Erradicar
Estamos tão perto uns dos outros. Somos contemporâneos, podemos juntar-nos na mesma frase, conjugarmos-nos no mesmo verbo e, no entanto, carregamos um invisível que nos afasta. Ouvimos os vizinhos de cima a arrastarem cadeiras, a atravessarem o corredor com sapatos de salto alto, a sua roupa molhada pinga sobre a nossa roupa a secar; ouvimos a voz dos vizinhos de baixo, dão gargalhadas, a nossa roupa molhada pinga sobre a roupa deles a secar; cheiramos as torradas dos vizinhos do lado, ouvimo-los a chamar o elevador e, no entanto, o nosso maior problema não é apenas não nos reconhecermos na rua. O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.
Há três ou quatro anos, caminhava com um conhecido no aeroporto. De repente, ouviu-se um estalido. Ele agarrou-se ao peito com as duas mãos, caiu de joelhos e, pálido, esperou por morrer. Não morreu. Tinha-lhe rebentado um isqueiro no bolso da camisa. Aliviado, encostado a um balcão, a beber um copo de água, explicou que esse ardor repentino e esse susto pareceram-lhe um ataque cardíaco. Nunca tinha tido um ataque cardíaco antes, por isso confiou em descrições vagas, a que nunca tinha realmente prestado muita atenção.

Há alguns anos também, talvez um pouco mais do que três ou quatro, tinha acabado de participar num jantar cordial, reconfortante. Toda a gente estava bem disposta, à porta dos anfitriões, longa despedida, graças, à espera de táxi. De repente, tocou o telefone de um senhor com quem tinha estado a conversar durante todo o serão. Ninguém reparou nesse telefonema até ao momento em que o senhor começou a chorar convulsivamente. Ficamos todos a olhar sem saber como chegar até ele. Tínhamos braços, estendiamo-los na sua direcção, mas continuavam distantes.
Irritamo-nos com a existência uns dos outros. Fazemos sinais de luzes àquele homem com setenta anos, num carro dos anos setenta, que anda a setenta quilômetros por hora na auto-estrada. Contrariados, esperamos por aquela pessoa que atravessa a passadeira, enchemos as bochechas de ar e sopramos. Impacientes, batemos no volante. Daí a minutos, depois de estacionarmos o carro, somos essa pessoa a atravessar a passadeira. Da mesma maneira, daqui a algum tempo, não muito, seremos esse homem com setenta, dos setenta, a setenta. O tempo passa. Se deitarmos lixo para o chão, alguém o apanhará.

Um amigo que teve um AVC, que passou por uma reabilitação profunda, que enfrentou a morte e a paralisia, depois de anos de fisioterapia, depois de esforço gigante e sofrimento gigante, falou-me da forma como esse susto muda tudo. Passa-se a apreciar aquilo que realmente importa. A imensa maioria das preocupações transformam-se em luxos ridículos, desprezíveis, alimentados pela cegueira. Após essa experiência de quase morte, ganha-se uma nitidez invulgar, que, no entanto, esteve sempre lá. Para percebê-la, bastava levar a sério a promessa de transitoriedade de tudo e, também, levar a sério essa palavra, esse planeta: o amor. Ao ouvi-lo, fui capaz de entender aquilo que dizia. Depois, também fui capaz de entender quando me disse: mas, sabes, ao fim de algum tempo, esquecemo-nos, voltamos a tomar tudo por garantido e voltamos a cometer os mesmos erros.

Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditarmos que ganhamos se os outros perderem. Os outros não são outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós. Se tivermos essa consciência, podemos usar todo o seu tamanho. Mesmo que pudéssemos existir sozinhos, de olhos fechados, com os ouvidos tapados, seríamos já bastante grandes, mas existe algo muito maior do que nós. Fazemos parte dessa imensidão. Somos essa imensidão que, vista daqui, parece infinita.


José Luís Peixoto, in revista Visão (Dezembro 2011)

terça-feira, junho 14, 2016

Amor da Palavra, Amor do Corpo





The Reader  (o Leitor) de Stephen Daldry
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
És de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à  beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.

António Ramos Rosa in 
Nos Seus Olhos de Silencio (1970)

terça-feira, junho 07, 2016

The Last Shadow Puppets



Alex Turner era só um miúdo quando os Artic Monkeys revolucionaram o rock britânico e se afirmaram como um dos mais interessantes projectos do início do século XXI. Quando se juntou a Miles Kane (The Rascals), o resultado foi surpreendente.

The Last Shadow Puppets, uma espécie de superbanda – cujo frontman era um miúdo de 20 e poucos anos, dedicada a reinventar o legado da pop barroca de Scott Walker num disco particularmente inspirado, The Age of The Understatement.

Everything You’ve Come to Expect é o segundo disco da banda , com um som igualmente surpreendente.  Entretanto, oito anos se passaram desde o lançamento de The Age of The Understatement.
in revista Sábado

5 Estrelas para este disco: Everything You’ve Come to Expect.

Deixo-vos uma das faixas.

 Entretanto, vou de férias, aproveitando os feriados.

segunda-feira, junho 06, 2016

And tell me how year after year you're sure your heart will fall apart each time you hear her name




Os dois homens discutiam o destino da Rapariga
sem ela saber  de que falavam.
Nas histórias dos poemas dela não existiam
dois homens como eles os dois.
Somos já crescidos, disse o amante.
Ela ama-me, disse o outro.

And since we know we're always changing
Why should it be the same?
And tell me how year after year
You're sure your heart will fall apart
Each time you hear her name

Disse-lhe tudo
para que saiba que nós nos amamos.
A Rapariga tremeu, hesitou:
não entendia a palavra tudo a que o amante se referia.
Não é tudo, pensou.
Ela não tinha a certeza do amor do amante
pensava ser um desejo carnal o dele.

 Os dois homens partiram, cada qual para seu lado.
Um partiu por vingança,
outro por achar definitivamente perdida
 a esperança de tê-la um dia,
ou por outro motivo qualquer.
Desinteressou-se.
A rapariga não compreendeu.

And since we know we're always changing
Why should it be the same?
And tell me how year after year
You're sure your heart will fall apart
Each time you hear her name

Se me amasse ficaria ao meu lado.
Se qualquer dos dois me amasse teriam
ficado, um ou o outro.
Cobardes os dois.
Ela ficou sozinha, mais triste que nunca.
Sentiu um leve medo de enlouquecer.
Nunca soube de que conversaram os dois por tanto tempo;
em plena consciência
sabia  que o amante não podia ter contado a história deles.
Ela não lhe disse que ele podia.
A Rapariga não compreendeu.

And since we know we're always changing
Why should it be the same?
And tell me how year after year
You're sure your heart will fall apart
Each time you hear her name


Era o dia 7 depois de os dois homens terem discutido 
o destino dela:

O amante vivia já com uma  outra.
Ela instalou-se em minha casa, não tive culpa, disse ele.
A Rapariga não compreendeu.

Dois anos depois, quando se curou da falta dele, da pele dele, do cheiro dele,
das mãos dele, da boca dele, do corpo dele, da língua dele,  desprezou-o.
A Rapariga nunca compreendeu o porquê
de os dois homens terem discutido o destino dela.

quarta-feira, junho 01, 2016

O Que Ando a Ler - Kafka à beira-mar


Estás virado para cima e tens a Saeki-san por cima de ti. Ela guia o teu pénis duro para dentro dela. Sentes-te impotente. É ela quem manobra a situação. De uma forma quase gráfica, desenha círculos com o corpo. Como os ramos de um salgueiro, o seu cabelo liso toca nos teus ombros e estremece sem rumor. Pouco a pouco, tens a sensação de ir sendo sugado para dentro da lama quente de um lago de lama quente. Tudo no mundo em redor fica quente, húmido e adquire contornos indistintos, apenas o teu pénis se mantém duro e reluzente. Fechas os olhos e começas a sonhar. Perdes a noção do tempo. A maré sobe, a lua nasce. E tu vens-te rapidamente, sem que possas fazer o que quer que seja para o impedir. Vens-te uma vez e outra e outra dentro dela. As paredes quentes da vagina dela contraem-se, recebendo o teu sémen. E durante todo este tempo ela continua sempre a dormir, de olhos bem abertos. Está num mundo diferente, é para lá que a tua semente se encaminha - engolida por esse mundo à parte.

Haruki Murakami, em Kafka à Beira-Mar (2002)
Existe na Feira do Livro, Lisboa.

Todas as Editores aderiram à Hora H, na Feira do Livro de Lisboa.
Hora H é de 2ª a 5ªfeira, das 22h às 23horas. Aí poderá comprar
livros, fora dos 18 meses do preço fixo, com mais de 50% de desconto.
Eu vou. E você?

The Painted Veil de John Curran (2006)

Diferentes assim, não vejo como
iremos construir casa comum;
talvez me deixes habitar o tecto,
e te deixe eu morar dentro do espelho.

António Franco Alexandre (1944)