terça-feira, maio 31, 2016

Mr. Somewhere




Em tempos todos os dias pensava em suicídio.
Só não te matas por seres cobarde - pensava.
Pedia, à noite, a Alguém que viesse durante o sono e me trouxesse a Paz.
Paz, eu só queria Paz.
Paz que parasse com os pensamentos tristes tristes tão tristes.
Pedia.

Hoje sou uma mulher diferente, alguém ouviu a minha voz que pedia socorro.
Ouviu e escutou.
O meu problema era  ter muitos amigos e ninguém que me ouvisse. Ninguém a saber que eu era aquela rapariga triste, triste, tão triste, aquela rapariga que dançava tão bem, tão bem nas festas dos amigos. Aquela rapariga que sabia todos os nomes dos realizadores, dos protagonistas, dos filmes, dos escritores, dos bailarinos, a tal a quem chamavam "adida cultural", A adida cultural era eu,  A rapariga das palestras, da política, da leitura. Uma intelectual, diziam eles, no gozo, claro. Claramente no gozo.

Eu sabia que não podia contar com eles, eu sabia.
Quando chorava na casa de banho, logo limpava os olhos, retocava a maquilhagem impecável e saía e nenhum deles dava por nada. Nem mesmo a família mais próxima. Voltava a casa, deitava-me, lia um livro e pedia, pedia todas as noites. Todas as noites. Eu era aquela rapariga triste, tão triste. Adoecia sempre. Doenças variadas. Doenças que não eram doenças, doenças que eram a minha tristeza.

Um dia, alguém me ouviu, estando eu calada. Horas a fio, ouviu-me.  Dizia: hoje à noite vou ter contigo e vais contar-me essa estória (é assim mesmo), de uma amiga tua  ter dito se não tinhas vergonha de precisares da boleia dela para regressares a casa. Assim começou.

Hoje, já não penso tanto no suicídio. Algumas vezes,  ainda,  penso em Paz. Paz.
Os amigos já não são. Livrei-me deles. Pertenço a outro tipo de gente, sei isso muito bem. Amizades de 20 anos, a passarem ao lado de dramas familiares, de mortes de gente querida, não são amigos. Nunca poderiam ser amigos. Durante 20 anos fui uma outsider, Durante 20 anos fui uma inadaptada.
Estava ali e não era eu. Durante 20 anos usei uma máscara,.. Eu não era eu.
A culpada era eu. A culpada era só eu. A culpada sempre fui eu. A culpada era eu e mais ninguém.

És uma convencida.
Tens a mania que és melhor que as outras.
Sabes tudo, não sabes é lavar a loiça, nem trabalhar quando é preciso.
Nunca trabalhaste na vida, devias era trabalhar como eu trabalho.
És uma snob nojenta.
Só te dás com gente da alta, mas olha que os pobres é que ajudam os outros.
Só te dás com maricas.
Não tenho respeito nenhum por ti.
Andas só com putos devias ter vergonha.
Não terias tempo para ler tantos livros se tivesses de trabalhar todo o dia e tratares dos filhos.
Ouvi? Ouvi! Falavam "entre dentes" e eu ouvia a raiva.

domingo, maio 29, 2016

A começar a ver agora. E que sorte ter este filme aqui à mão Velvet Goldmine



Curt Wilde aka Iggy Pop por Ewan McGregor


Brian Slade aka David Bowie por Jonathan Rhys Meyers
Brian Slade também conhecido por Maxwell Demom
The realated vídeo content may
be disturbing to some
indibviduals




















[SONETO DO MEMBRO MONSTRUOSO]


Esse dysforme, e rigido porraz
Do semblante me faz perder a cor:
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para traz:

A espada do membrudo Ferrabraz
De certo não mettia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz.

Creio que nas fodaes recreações
Não te hão de a rija machina soffrer
Os mais corridos, sordidos cações:

De Venus não desfructas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.
(Manuel Maria do Bocage)

Brian Slade: -  Man is least himself when he talks in his own person... Give him a mask and he'll tell you the truth.
Curt Wild: - We set out to change the world... ended up just changing ourselves.
Brian Slade: - What's wrong with that?
Curt Wild: - Nothing, if you don't look at the world.


Imagens e vídeos do filme : Velvet Goldmine

De: Todd Haynes
Ano: 1998
Com: Ewan McGregor, Jonathan Rhys Meyers,
Christian Bale, Toni Collette
Filme para Adultos


É Só Para Quem Pode NÃO
É PARA QUEM QUER.
Em ecrã de cinema.

Numa casa perto de mim.





Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam charros e putas e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade. Mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto.
Um minuto.

Filipa Leal

Fabrice Calmels Solo - Joffrey Ballet of Chicago



Fabrice Calmels

sábado, maio 28, 2016

Will McBride
Sou fiel a todos os meus amantes, pois, tendo-os amado um dia, fico sempre a amá-los e quando de noite estou só, ou de manhã bem cedo, fecho os olhos e celebro-os a todos.

Arthur Rimbaud, in "I Promise to Be Good, the Letters",
anterirmente escrito para o seu amante, Paul Verlaine


quinta-feira, maio 26, 2016

Os milagres existem.


E de repente, a minha perna desbloqueou. Ontem foi um dia feliz. Subi as escadas sem esforço, sem dor. Primeiramente não quis acreditar, passado um ano e alguns meses de incógnita . Vamos ver se melhora, diz o médico, vai levar isto, vai tomar todos os dias, as dores passam, com certeza. As dores não passavam, ao fim de terminar o tratamento resolvi não continuar com mais medicação coisíssima nenhuma.

Acreditas em milagres, pergunto a um amigo. Ele diz que sim. Eu acredito em milagres e nas medicinas alternativas e em milagres. Prometo nunca mais voltar a ingerir as estatinas, as tais que me puseram nesse estado de incapacidade de ter uma vida normal. Chorei muito, não podia subir escadas, não podia fazer exercício, não podia andar normalmente. Quando ia ao mercado, aqui mesmo ao lado, havia uma prisão estranha que me impedia de avançar.

Há cerca de ano e meio que tudo começou, doutor, li num jornal que estas dores podem ser devidas ao fármaco que ando a tomar para o colesterol. Ele disse que sim, pode ser, pode, disse ele. Fiquei meio aparvalhada. E nunca me avisou dos contras, pensei. Ao fim de CINCO anos de toma das pastilhas para baixar o colesterol, o comprimido milagroso revelou-se um autêntico veneno. Destruía lentamente o sistema muscular. Será que ainda vou a tempo de travar a progressão dos malefícios das estatinas, o médico disse que sim, pára 10 dias e todos os sintomas desaparecem. Eu sabia que ele estava a mentir, entretanto já estava informada de tanto ler e de consultar outros médicos. Podia deixar sequelas, disse um deles. Foi o pavor. Não vou conseguir andar, nunca mais.

Claro que não fiquei parada, à espera, enveredei pelas alternativas para descer o colesterol, pelas alternativas para melhorar o aparelho muscular. Quando ontem, pela primeira vez, consegui subir três degraus, com ambas as pernas, anteriormente subia apenas com a esquerda, a menos afectada, levando a direita atrás, senti-me profundamente agradecida. Desci as escadas e voltei a subir e ri-me: estou melhor, disse. Alguém riu comigo. E chorei. E agradeci,  a Deus seja Ele o que for (Universo ou Tantra), à medicina chinesa, ao farmacêutico da farmácia aqui tão perto e  principalmente a ti que nunca permitiste que eu desistisse. Os milagres existem.


E escrevi, em tempos:
A mente avança e progride.
O corpo retrai-se e recusa-se.
Eis o meu drama.

terça-feira, maio 24, 2016

Viver Não Custa... excerto - Françoise Sagan


Pareço resignada mas não sou, os outros é que são:
os jornais, a televisão.
«Atenção, atenção, respeitável público.
Tantos por cento vão morrer
em breve num acidente de viação,
tantos por cento de cancro na garganta,
tantos por cento de alcoolismo,
tantos por cento de velhice miserável.
E não podem dizer que os jornais os não preveniram.»
Mas eu por mim creio que o provérbio é falso,
e que não vale mais prevenir que remediar,
creio no contrário.
«Atenção, atenção, respeitável público,
sou eu que vos digo:
Tantos por cento vão saber o que é um grande amor,
tantos por cento vão compreender um pouco
o que é a vida,
tantos por cento vão mesmo ajudar alguém,
tantos por cento morrerão
(é claro que cem por cento morrerão),
mas tantos por cento terão à hora da morte um olhar
e as lágrimas de alguém.»
É isto o sal da terra e desta vida danada.
Não são as praias que se sucedem
em cenários de sonho,
não é o Clube Mediterrâneo,
não são os companheiros de folia,
é qualquer coisa de frágil, de precioso,
que é deliberadamente destruído durante o dia,
e a que os cristãos chamam alma
(os ateus também, aliás, sem usarem o mesmo termo).
E essa alma, se não tivermos cuidado,
encontrá-la-emos um dia à nossa frente,
sem fôlego, pedindo misericórdia
e cheia de nódoas negras...
E essas nódoas negras...
E essas nódoas negras não foram,
com certeza, inventadas.

Françoise Sagan, em
 Viver não custa...

sexta-feira, maio 20, 2016

Stereophonics - Graffitti On The Train



"Marry me" he wants to paint the words on...
"Marry Me, I Love You"







Helene Knoop Art
“You who never arrived
in my arms, Beloved, who were lost
from the start,
I don’t even know what songs
would please you. I have given up trying
to recognize you in the surging wave of the next
moment.”


Rainer Maria Rilke

terça-feira, maio 17, 2016

não existe uma fórmula para a química sexual ou está lá ou não está














O mundo parou, todas as horas pararam. Olho-a, penso, vago vislumbre de ondas alterosas, prazeres insólitos, inocência. O alto pescoço, o vago sensual porte de animal nobre. Avalia-nos. Quantos, como nós, terão de dizer que não a querem. Ali, onde. Pingar de suor, suor nesse luar de mundo onde olha como se esconda. Soletrar no seu ventre as sílabas onde nascem todas as ondas. Ali. Preciso dela. Não escolhi. Veio apenas de encontro aos meus sonhos. Hoje penso se alguma vez me entenderá.













não existe uma fórmula para a química sexual
ou está lá ou não está




todos os dias noto a chuva a cair dos teus olhos 
digo chove tanta amargura que peço que a chuva pare
 mas todos os dias a chuva volta e a amargura nos teus olhos



Ocasionalmente, fala numa espécie de doce dialeto, move-se como uma rapariguinha. Dança dentro dos sonhos, acompanha-o aos seus destinos mais sombrios. As despedidas angustiantes afirmam que ela é tudo aquilo que o apetece e tudo o que deseja. O desejo instalava-se e confundia-se com o extraordinário júbilo da descoberta do amor simples.


He Said
It's magic
It's magic, you know

Leaning on my pillow in the morning
Lazy day in bed
Music in my head
Crazy music playing in the morning ligh




a incerteza do caminho no calor do teu corpo
apeadeiro onde se canta a arritmia de um adeus.
bebo nesta paixão desenfreada a loucura nua
de te saber em nome, em corpo, em voz.
Gosto de te encontrar proibida de desejos
O sangue recorda a desmedida chamada do desejo, as ondas de calor em regresso de memórias adormecidas. Havia esquecido os sortilégios, a violência dos contornos da ardente e frenética procura do prazer.





os meus lábios nos teus lábios são a prece na madrugada onde dois corpos se amam os meus lábios nos teus lábios são a dor onde me deito os meus lábios nos teus lábios são delito sem culpa formada crime paradigma de futuro os meus lábios nos teus lábios são promessa de transgressão letal som sem produzir som os meus lábios nos teus lábios são eu e tu e este amor sem cura nem dedicatória o meu nome no teu nome perdidos achados em canto pagão nos teus lábios os meus lábios são






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