quinta-feira, abril 28, 2016

Marissa Nadler - "Dead City Emily"


"Dead City Emily"
Directed by Derrick Belcham and Emily Terndrup
Shot and edited by Derrick Belcham

Performed by Marissa Nadler, Emily Terndrup and Austin Tyson

terça-feira, abril 26, 2016


"Ryan's Daughter" (A Filha de Ryan) de David Lean
Não o olha. Toca-o. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada,
a desconhecida novidade, Ele geme, chora. Está num estado de amor abominável.
E a chorar fá-lo. Primeiro há a dor. E depois esta dor é por sua vez possuída, 
transformada, lentamente arrancada, levada até ao gozo, abraçada a ela. O mar,
sem forma, simplesmente incomparável.

Marguerite Duras (O Amante)

sexta-feira, abril 22, 2016

"O Porteiro da Noite" (The Night Porter) de  Liliana Cavani

Disse que a alma não é mais do que o
corpo,
E disse que o corpo não era mais do que
a  alma,
E que nada, nem mesmo Deus, é maior
aos olhos de um homem do que ele
próprio,
E que todo aquele que anda duzentos
metros sem amor vai ao próprio funeral
envolvido na sua mortalha.
Walt Whitman

You never really understand a Person until
you climb inside of his skin and walk around it.
foto Laurent Ziegler

The Chemical Brothers - Go

quarta-feira, abril 20, 2016

És tu...



Não há uma recordação de um homem que não eclipse na minha memória a recordação mil vezes mais nítida e mais firme do meu companheiro de evasão, a recordação de um tique, de uma palavra, de um gesto, coisas de nada talvez, mas que te são peculiares.
Encontrei-te aqui um dia, há anos atrás. Eras-me desconhecido. Ignorei-te. Não te via.

És o homem que me deu mais prazer. O importante. O tal. Aquele. Ele. Não sei como hei-de dizer-te. Será culpa minha se sempre me entendeste mal? Somos amantes. A realidade apanha-nos desprevenidos, mas as coisas agravam-se quando me dizes, não posso viver sem ti. E eu sem me decidir e com medo, com medo de enveredar por caminhos desconhecidos. Tu. Tão mais novo.

Eu amo-te. As coisas são como são. Não havia passado, o mundo começava. Contigo iria até ao fim do mundo. Eu que detesto viajar. Será culpa minha se  as viagens me aborrecem? E tu sempre em viagens, de um lado para o outro, eu a pensar, podias ter ido com ele. E podia, bastava que a minha vontade vencesse o medo. Medo das decisões desacertadas. Alguém disse um dia ser-te difícil tomar decisões. Não é verdade, tu sabes. Sou eu a culpada de tudo. Só eu.

Tu és o meu amor, aquele por quem eu daria a vida, aquele cuja presença e a emoção que ela suscita fazem com que nada possa ser indiferente. Ah, meu amor,  dizer o milagre das tardes, das manhãs em que juntos fizemos o que chamo de obra-prima. 
A sensação de uma felicidade tão grande que ouvi o inaudível, experienciei o prazer absoluto. Tens esse poder sobre mim e eu amo-te.


Sim


! 
S



S
SIM

Vale a pena?



Vale a pena um fluir lento e constante
Vale a pena uma cor que se esmorece
Vale a pena o sorriso de um instante
Vale a pena um amor, que após se esquece

Para quê, um sentimento palpitante
Para quê, a brasa ardente que arrefece
Para quê, tanto chorar alguém distante
Para quê a mocidade, se envelhece

Não há resposta, pois não há resposta
Seja o que for que a gente se pergunte
As nossas vozes perdem-se na encosta

E não vemos ninguém que as oiça e junte
É sempre um eco frio, soluçante
A rebater em nós a cada instante


segunda-feira, abril 18, 2016


Imagens "Little Children" de  Todd Field
“She was the kind of woman who always surprised you with the realization that she was just as lovely as you remembered, though it hardly seemed possible in her absence.”

(Little Children)

quinta-feira, abril 14, 2016

Auto-Retrato com palavras do Outro - Paul Auster



Foto Nan Goldin
Na impossibilidade das palavras, na palavra por dizer que asfixia, é que eu me encontro.

(Paul Auster)

Paul Auster - Os Meus Escritores


A partir de 28 de Abril não perca a colecção de clássicos de Paul Auster, com  a revista Sábado.
Todas as 5as feiras de 28 de Abril a 12 de Maio.


Nome: Paul Benjamin Auster
 Data de Nascimento: 3 de Fevereiro de 1947
 Local de Nascimento: Newark, Nova Jérsei
 País: Estados Unidos da América

Autor de vários best-sellers como Timbuktu, O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo e A Música do Acaso.

Licenciou-se em 1970 na Universidade de Columbia e viveu durante quatro anos em França. A sua proximidade à literatura francesa haveria de marcá-lo para sempre. Foi confesso admirador de André Breton, Paul Éluard, Stéphane Mallarmé, Sartre e Blanchot, alguns dos quais traduziu para a língua inglesa. O seu gosto pela tradução é muitas vezes referido pelo próprio, que aconselha os jovens escritores a traduzir poesia para entenderem melhor o significado intrínseco das palavras. 

Além destes autores, Paul Auster refere ainda como suas influências Dostoiévski, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Faulkner, Kafka, Hölderlin, Samuel Beckett e Marcel Proust.

Em 1998, realizaria o seu primeiro filme, "Lulu on the Bridge". Nos seus livros é evidente a influência cinematográfica norte-americana e as suas histórias desenrolam-se numa sucessão que faz lembrar um thriller, usando igualmente o método da "caixa chinesa", sucessão de histórias no interior umas das outras. A sua obra parece ser mais apreciada na Europa do que no seu país natal.

Boa parte da sua história é contada por ele como se fosse uma autobiografia. "Da Mão para a Boca" reúne relatos de sua vida.


E dizes qual o próximo truque?

Joseph Simons - foto Joel Devereux

Se fosses voz entenderias os caminhos da memória, os precipícios de desastre sem fim onde as minhas quedas sobre quedas fazem o adeus ao que fui e tu dizes onde foi isso. 
Respondo lá longe onde os barcos se afundam e as mulheres gritam a morte dos homens como homens a desenharem a cruz a rirem das saias sete saias, tanta saia e cais e levantas-te e voltas a cair.
Passas a mão como leque em visão de profundo desdem; é só uma outra mulher, não interessa, ris como se fosses máscara e ali estava o cavalo e o milagre à beira do precipício.
Aconteceu milagre, a mão dele estende-se, sai de lá e aterra aqui, onde as areias e o mar se juntam. O toque é promíscuo, como a dizer podia tocar-te agora mesmo, os homens afundam-se, as mulheres gritam e o riso é de amante a dizer podia se tu quisesses mas não queres. 
you're the one that I want.
 As vagas inundam o paredão, por fim são de tranquila paragem sem ser de paz apenas a pausa que precede a tempestade. Temo que amanhã seja o dia em que o filme volte a mudar e vê-se a bailarina que fui em espelhos espelhados de amor e tu dizes onde foi isso.
Respondo como é possível que o bailado parte do meu passado me impeça de ver os passos e dança das ondas a observar a tempestade que se avizinha. 
E dizes qual o próximo truque?

segunda-feira, abril 11, 2016

My Body is a Cage






tu és o nó de sangue que me sufoca.
dormes na minha insónia
como o aroma entre os tendões da madeira fria.
és uma faca cravada na minha vida secreta.

(herberto helder)

sábado, abril 09, 2016

Um Chá no Deserto com palavras de José Luís Peixoto





Bernardo Bertolucci “The Sheltering Sky”(Um Chá no Deserto)

Escuta, Amor
Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
    Escuta,
    ouve.
    Amor.

    Amor.

(José Luís Peixoto)

Inquietação




na minha gaveta de papeis
tinha 13 anos quando escrevi o meu primeiro poema,
16 quando escrevi o primeiro texto erótico.


Inquietação
Sabe-se lá por onde havemos de ir,
Quando todos os rumos se convergem
Quem saberá, se avançar é cair?
Quem achará os muros que protegem?

Quem virá no tempo de partir,
Para que as recordações enfim nos deixem.
Onde se queda a vida que há-de vir,
Onde estarão os braços que me elegem.

Esta ânsia de amor e infinito
Esta busca constante de algo incerto,
Que a alma já me invade e é quase grito.

Não seria para mim tão duro espinho,
Se tu foras, amor, enfim liberto.
E quisesses levar-me no teu caminho.


sexta-feira, abril 01, 2016




“There are poems inside of you that paper can’t handle”


Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


Vinicius de Moraes





“La main aussi a ses rêves, elle a ses hypothèses. Elle aide à connaître la matière dans son intimité. Elle aide donc à la rêver.”

Gaston Bachelard
The truth is the truth: I can’t have you. 
So I’ll move on with false delight
Because no matter the longing, we both knew: 
That our stars would shine dimly tonight.








um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o principio de uma palavra, para não estragar

a perfeição da felicidade.
José Luís Peixoto

Não há verdade:
O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.
Jorge de Sena

De onde vem o teu nome?
porque cantas canções tristes
e choras devagarinho à noite
porque despertas com o escuro
e fumas e comes chocolate
porque muda de cor o teu cabelo
porque parou o teu olhar hoje
como se chamam os teus gatos
onde estarás depois de amanhã
onde guardas as palavras
que à noite viajam para mim
tantas perguntas por
perguntar  quem és
tu?
Carlos Alberto Machado





Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus
Eugénio Andrade
A minha boca enchia-se de areia, pedras e peixes pequenos entravam-me pelas narinas 
e pelos olhos turvos de sal,
o impulso da água levava-me pela teia do mar, tropeçando num coral de gesso.
Talvez os peixes sejam sinais de uma luz que armou o pano em vela de cruz aberta ao mar,
onde ninguém sabe qual é o meio, se a guerra se a espuma.
António Ferra