quinta-feira, maio 28, 2015

Dói-me estar aqui sem ti

há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.
(roberto juarroz)

As janelas abrem-se 
o ar que respiro chama-se o teu nome
O vento sopra na mansidão da noite
o vento que acaricia chama-se o teu nome
O sol escalda igual ao teu sexo
o sol que abrasa chama-se o teu nome

O lugar onde existo sem ti
chama-se o teu nome.
Dói-me estar aqui sem ti.



Nagisa Oshima ( The Man Who Left His Own Film)

quarta-feira, maio 27, 2015

Banished from Camelot - Eu sei que não mentes...



Foto Greg Allum
sei lá quem sou?! sei lá? 
Ama-se quem se Ama e não quem se quer Amar. 
(Florbela Espanca)


Foto Thauh Nguyen


Eu sei que tu não mentes quando me olhas distante e te entristeces.
Quando me olhas assim. Como se tu quisesses, como se até quisesses.
Mas deixa lá, ainda às vezes te tenho ao pé de mim.
E depois, sabes, no teu olhar tão vago,
a confissão tão estranha
vem-te triste.

Que amor foi esse, que me não fechou os olhos,
me não estendeu os braços, que não me lançou no teu peito, que não disse:
Há padrões e há mundo?
Pois este, este é o meu.

Agora é tarde?
Eu sei que tu não mentes quando me olhas distante e te entristeces.

segunda-feira, maio 25, 2015

penso em ti - l'amour fou

Imogen Cunningham, Nude, 1923



empalidece-me de beijos
veste-me de desejos
à boca da noite viajo
neste fogo devaneio
e eis-me aqui
nome profano
chamas do poente
douram-me a cabeça
penso em ti


quarta-feira, maio 20, 2015

a explicação do absurdo



Nan Goldin
circulo nos teus braços a fome de outra amazona antiga feita em silêncios de viagem mergulho contigo em passos que parecem dizer dança, como se deixasse o remorso tomar de mim conta na violência dos gestos em alguma espécie de saudade. gestos físicos em jogo de animal a quem extirparam o veneno como se existisse um deus nesse corpo.

capa expressiva de mágico interlúdio lúdico onde as minhas penas se esqueciam, esquecendo o ponto da derrota logo adivinhada. jogo de mentira na verdade do sentir as penas adivinhadas.

até um dia em que Rimbaud cantou para mim os seus versos enfeitiçando-me.

desde aí meus acidentalmente nenhuma lua nova voltou a cantar e assinei os vales onde o sol fez greve. o dia em que Rimbaud me enfeitiçou.

tocados os dois pela divindade fomos trabalho de beleza no uso elementar das coisas com corpos expectantes e beijos luz a encher o quarto bebendo nas nossas bocas onde ambos eramos a fonte.

descemos os dois até ficarmos presos a esse espelho onde a imagem reflectida era  de nós como se fossemos outros, outros os corpos outros os rostos na pose de sermos um do outro ao abrigo do descanso de duplicidade, duplicidade  finalmente encontrada na explicação do absurdo.

o dia se fez noite a noite se fez dia e a sombra se fez casa.


domingo, maio 17, 2015

tout le reste je m'en fou



“He falls on her lap and lies there quivering like a toothache” 
Henry Miller, Tropic of Cancer

Coup de Foudre
un coup violent mais délicieux
une savoureuse blessure
on est inconscient
on ne peut plus réfléchir
on ne pense même plus
attaqué comme la foudre,
après quelques regards,
c'était le coup de foudre


aujourd'hui, à tes côtés, je vis l'amour fou,
j'en arrive même à dire que tout le reste je m'en fou 

quarta-feira, maio 13, 2015

O Presente Absoluto



Lucian  Stanculescu
Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes terem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.

Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.

Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.

António Ramos Rosa, 
in Antologia Poética

terça-feira, maio 12, 2015

A vida corre e corre, a vida passa








A vida corre e corre, a vida passa,
Nem sequer nos permite um sentimento.
A vida corre e corre, a vida passa,
E tudo se converte em pensamento.

A vida corre e corre, a vida passa,
Cada sorriso esconde um sofrimento.
A vida corre e corre, a vida passa,
Em toda a gargalhada há sofrimento.

Tudo o que é alegria mente e chora.
O olhar mais aberto, o olhar mais pronto,
A vestir-se de cor é triste. E implora

Uma réstia de sol que lhe faltou.
Que a vida é um perpétuo confronto,
Entre o que se viveu e se sonhou.
(kodak khrome)
aos 17 anos

quinta-feira, maio 07, 2015

Life is too short for shitty sex so go find someone who fucks you right



os meus lábios nos teus lábios são a prece 
na madrugada onde dois corpos se amam
os meus lábios nos teus lábios são a dor onde me deito
os meus lábios nos  teus lábios
são delito sem culpa formada crime paradigma de futuro
os meus lábios nos teus lábios
são promessa de transgressão letal som sem produzir som
os meus lábios nos teus lábios
são eu e tu e este amor sem cura nem dedicatória
o meu nome no teu nome
perdidos achados em canto pagão
nos teus lábios os meus lábios
são







Os pulhas sempre fumaram cigarros.
Prontos a disparar, recebem neles a morte
das felicidades perdidas, das vidas vazias sem amor.
Eis o seu castigo




A Rapariga dos Livros





Il tuo corpo, il mondo, corre.
I miei occhi, il mondo, anche.
Nessuno ama due volte con gli stessi occhi.
Gabriel Zaid

Não houve felicidade, não houve emoção que alguma vez tivessem podido suplantar a recordação que guardo daquela noite ao regressar do teatro.
Ao recapitular os acasos que tinham feito daquela noite a minha noite 

e dela a minha inconsciente cúmplice
















Entra por essa porta e vem sentar-te
aqui, como daquela vez em que te disse:
os vulcões são pirâmides de luz,
ou campos cheios de sol iluminado.

Terás morrido, sim, e tanto faz
se a sério, se a fingir, os outros o dirão.
Quanto a mim, és fenómeno de gelo
resistente a calor e primavera.

Entra então neste dia, que o sol
resiste ao brilho mais do que neste mês
lhe resistiu, e eu preciso de luz,
não se vê bem agora, é muito tarde,
as luzes nesta sala são baixas e cruéis.

Toma, uma cadeira boa (como a chama
que chega sinuosa): as formas são castanhas,
em perfeita esquadria, e as costas mais direitas
que um icebergue azul na vertical.

Talvez te diga: pirâmides de luz,
estes vulcões. Ou não.
Se eu não estiver, ou não estiveres em casa,
deixo um bilhete à porta, junto ao Hades,
na esperança de que o cão
o não destrua

ana luísa amaral



Da noite, da chuva, das danças sem igual,
Para ti os lábios que sorriam,
para ti o sorriso do anjo, complemento de corações
em fúrias e dorsos de cisnes.
Cada pulsar de coração, ameaça de fogo mais ardente,
cada segundo a eternidade,
o golpe feito onde uma flor caiu derramando água.
Tu és.


segunda-feira, maio 04, 2015

Eu sou nós os dois.
Ou melhor, nós os dois somos nós os dois, eu sou o terceiro.
Sou eu quem está a falar de nós.
 (Manuel António Pina)


No espelho os bailarinos  Lillian Barbeito 
e Guzman Rosado 
em "kollide".