quarta-feira, dezembro 30, 2015

Pippin: His Life and Times 1981 - Só para quem gosta















At the goading of the ominous and 
omnipresent Leading Player, Pippin, 
the eldest son of King Charlemagne, 
samples life's pleasures to discover 
his place in the world and 
the meaning of his life.



Pippin, His Life and Times (1981)
Musical
Coreographer: Bob Fosse
The Leading Player : Ben Vereen
Pippin: William Katt

Kodak Khrome por «Um Dia» - O retrato feito em # Um Dia Mostro-te Tudo#


Kodak Khrome


Fode-se em tons pastel com preliminares feitos de conversas inteligentes.
Há que ter uma opinião, conhecer as rosas e preferir os espinhos.
Fode-se ao som da música; sem um estilo particular, terá que ser dançável.
Há que aceitar o turbilhão que nos é oferecido. Contornar o simples e o complexo sem fazer escolhas, porque elas nunca foram feitas, nem bem lá no fundo.
Fode-se com força, mas dá-se espaço à melancolia, às eventuais lágrimas, ora boas, ora más; fazem parte de um íntimo quase indecifrável, capaz de transbordar num olhar desinteressadamente interessado.
Fode-se sentindo mais a pele do que o acto, o abraço do que o suor. Mas teremos de ser capazes de esperar o inesperado, quer traga sorrisos, quer traga tristezas.
Mas há que ter uma opinião, saber-se que um distraído pontapé na estética é capaz de arruinar tudo o resto, sem retorno possível.
Conhecer o Mundo é tão importante como conhecer as páginas de um qualquer livro, seja Kafka, seja Marx, seja até Hélder. O importante é ter uma opinião e não ser estúpido(a).
Fode-se como se de uma revolução se tratasse, seja interior, nossa ou talvez não.

um dia,
 no blog "um dia mostro-te tudo" :)
Bom Ano à Tutti Quanti

terça-feira, dezembro 29, 2015

o Dom

arno rafael minkkinen

A porta abriu-se de repente, tocou-me as costas.
Lá atrás, ninguém. 
NINGUÉM.


I don't know if I get through
I wanna be floating in space


and DEATH asks: are you crazy or what?


talvez a vida seja a morte
e quando a gente morre,
acorda e vive,
com medo de morrer,
quer dizer, de tornar a viver.
(clarice lispector)

and DEATH says:
so I guess i'll be hunting high and low...




Connie Imboden
(Não te peço os exageros de Deus a falar da sua mãe, mas seria tão bom se tivesses alguma coisa agradável para dizer sobre mim. Não seria preciso que mo dissesses cara a cara, bastava que o escrevesses. Depois, quando lesse essas palavras, podia imaginá-las na tua voz)
josé luís peixoto

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Diário de Mim











A ele, parecia-lhe que o olhar dos dois se tinha cruzado algures. A ela, parecia-lhe que
ambos  se tinham cruzado algures num mesmo caminho.
Acreditaram que alguns passos na direção um do outro bastariam para sentirem que se pertenciam.
Avanço, seguro-te, prendo-te, apalpo-te: somos íntimos. Diz ele.
Ao longe, há o silêncio da sala onde ele teme que ela se levante e se vá embora.
Ela está na sua frente e olha-o. Fala e transfigura-se.

Ela já não é nova, bem se vê, mas que idade terá?
Conheço a cara dele, bem mais bonito, será que me entende?
Uns quarenta anos? Mais de quarenta? Muito mais?
Deve estar a pensar no meu vestido meio preto, meio transparente. Que idade ele terá?
Ele faz um cálculo confuso. Quantos anos? Não interessa, a idade não parece tê-la marcado.

Ela está na sua frente a olhá-lo. Já, uma vez, quase se conheceram.
De quem herdou semelhante olhar?
Olham-se e entendem a linguagem comum
Desde esse dia, corria o boato de que ele e ela andavam ostensivamente um com o outro.
Era como ambos tivessem caído doutro planeta.
Outros havia que lhe deram o nome de Obsessão.
O sentimento, esse sentimento ou paixão ou amor que sentiam um pelo outro.
Ambos acreditavam que tinham existido antes os dois juntos
noutro lado qualquer em vidas passadas ou passadas vidas.

A ele, parecia-lhe que o olhar dos dois se tinha cruzado algures. A ela, parecia-lhe que
ambos se tinham cruzado algures num mesmo caminho.

Fotos de  Kodak Khrome (Banished from Camelot)
Banda sonora de Kodak Khrome (Beach House)
Palavras de tristan reveur

Amo-te tanto
Também te amo muito

E nada podemos fazer um pelo outro

terça-feira, dezembro 22, 2015

Adagietto


A lembrança de ser quem era vem-me enquanto danço.
Eu era, lembro-me. O melhor entre os melhores.
Fugi da minha terra, lembro-me ainda. Vagamente.
Os meus passos eram dança, não havia mais ninguém no palco a não ser o pano de cena.
Esta doença que não me deixa dançar, como foi acontecer?
Já não sou quem era. Tento. Desisto. Tento. Desisto.
As minhas pernas recusam-se a ..Desisto.

Não posso desistir. Sou o Maior. Sou Grande. Sou Único.
O meu nome é
O meu nome é?
Jorge. Jorge, lembro-me. Vagamente.
Haverá aí alguém que ainda me conheça. Recordação de um dia ter sido eu.
Eu, quem? Donn. Jorge Donn.
Levanto-me. Caio. Forças. Não tenho forças.
Eu dançava assim. Fui um bailarino.

Bailarino. O pano subia. O pano descia. As palmas. Recordo as palmas.
Gente a chorar, a rir, gente a chorar vendo a minha ...
Vendo a minha vida por mais um minuto assim.
Uma hora. Um mês. Não. Um ano. Um ano mais.
A minha vida acabou.
Não posso dançar.
A minha vida acabou.
Não posso dançar.


segunda-feira, dezembro 21, 2015

Man Ray
Não tenho nada a dizer
Cansa-me o dizer de palavras

Estado de Sítio







A Banca portuguesa está por um fio.
A Banca portuguesa não vai resistir.
Não tenham calma.
Façam o que têm a fazer.

Sabem o que é!

O governo anterior sob JULGAMENTO.
Em breve, noutro blog, actualizam-se as notícias.
A União Europeia já era.
A partir de 1 de Janeiro novas medidas de Bruxelas.

Este Governo herdou as trapalhices do governo PSD/CDS, as canalhices,
os negócios escuros, as luvas, as privatizações a custo zero.
Para onde foi o dinheiro?
Quem lucrou com as privatizações?

Impõe-se o julgamento dos anteriores governantes, incluindo o PR


Querem o quÊ?
Pensam o quÊ?

Continuaremos noutro lugar.
Quem sabe sabe, quem não sabe paciência.



And now the stars replaced the sun and there's a woman's face




Crippled by this raw desire
I keep on reaching high and higher
And now the stars replaced the sun
And there's a woman's face
In each and everyone
And it's so blinding

sábado, outubro 31, 2015

JE SUIS COMME JE SUIS
De manhã tomei banho contigo. 
De tarde apanhaste o avião.
Horas de espera no aeroporto.
Ainda assim, apesar da saudade que se instala, sei que voltarás já na semana que vem. Desta vez será por mais tempo. E isso é bom.
Amo-te.

sábado, outubro 10, 2015

I should have known better/Jim Diamond


O Facebook e as incógnitas do sujeito - Shake the Disease



Arte de lucian stanculescu
..Era uma vez um adolescente sem amigos e meio frustadote, estudava numa universidade, mas não tinha amigos. A técnica ensinou-lhe como deveria fazer para se tornar popular; enganou uns tipos dizendo que os ajudaria a formar um grupo tão popular, que os próprios  ficariam parvos com as conquistas que fariam através desse meio perfeito e inócuo. A ideia tinha sido dos outros, mas isso agora não interessa nada, roubou-lhes a ideia, construiu o tal site a que deu o nome de facebook. Os americanos  livres, os chamados  americanos dos Estados Unidos da América, tipos do Texas, do Minnesota, de todos os cantos e regiões da terra do tio Sam, aderiram em massa ao tal projeto; Facebook.

Esses tipos americanos, a gente já sabia que eram estúpidos, ingénuos, fiquei muito surpreendida, quando na velha Europa a coisa virou fenómeno. Experimentei, aos poucos apercebi-me que aquilo não passava de um meio de se encontrar amigos, sem ser amigos, tipo vamos lá, vamos lá, não consigo seguir o raciocínio...aquilo seria uma espécie de aplicação informática, um ensaio de social networking que não nos são apresentados com qualquer intenção estética. Aquilo era material de engate, apesar de alguns não concordarem, aquilo é mesmo material de engate.

Ao travarmos conhecimento com alguém, em vez da troca do prosaico cartão-de-visita, bastava um pedido de amizade para estabelecer uma ligação entre os respetivos perfis online, tornando-os visíveis entre eles. Potencialmente todos os nossos movimentos poderiam ser seguidos e registados. Sem estar particularmente motivada para a aproximação de corações, ou a catadupa de amigos virtuais a entrar-me casa adentro, ainda me dediquei ao estudo da coisa, um punhado de impressões mais pessoais. Pretende-se estabelecer um triângulo, quiçá amoroso, entre amigo e amigo e a rede social, como uma membrana uterina.

Ao contrário do que acontecia há anos atrás, estes aderentes às redes sociais, deixaram de assistir a um filme nos cinemas, a deslocar-se  para ir ao teatro, a promover reuniões em casa com os amigos reais, passaram a encontrar-se no facebook. Como a maioria tem um emprego, não tendo acesso à rede social durante o dia, fazem-no pela noite fora. O que se perdeu com a coisa? As idas ao cinema, o falar (só teclam),  muitos já não falam uns com os outros, (caiu  em desuso), e outras coisas que a coisa tirou, como estares num jantar com gente com que era hábito trocares ideias, falar sobre assuntos atuais, e dás com eles à frente do ipad, ou ipod, ou sei lá o quê, a fotografar para democraticamente publicarem na coisa, com comentários mais ou menos idiotas, seja; - estou na fonte da telha a comer um peixinho-, ou - estou numa fila à espera de mesa -. Um simples click e aí vai a foto direitinha à coisa, para os amigos que estão na coisa, verem o interessante que é estares a comer peixinho, e ficarem cheios de invejinhas raivosas. Pensas tu. A maioria, está exatamente a fazer o mesmo que tu, a pensar o mesmo que tu, ou seja, vou enviar esta foto para a coisa, assim os meus amigos veem como eu estou divertido aqui com a Maria.

O acesso à comunicação, a possibilidade de ter uma voz, não deixa igualmente de ser uma certeza que as nossas vozes se exprimem quase exclusivamente através de fórmulas de design preconcebidas, empacotadas e nada flexíveis. O facebook, entre outras, roubaram-nos o prazer de comunicar. Hoje falamos, argumentamos, partilhamos imagens e musica - partilhamos mais, aparentemente - mas uma grelha de linguagem devota de qualquer plasticidade. Não somos donos da nossa própria sintaxe ou gramática. Somos autênticos papagaios. O facebook é um social feroz, com censura levada ao extremo, eliminando aquilo que não parece muito seguro (para eles os donos da coisa), não esqueçamos que os nerds dos american citizens não sabem nada sobre arte, a real. A nudez proibida de uma obra de arte, de uma fotografia assinada, é para eles pornografia. São os verdadeiros nerds ; -o creep americano-. Bons só na Broadway, nisso eles são bons, de resto são uns ignorantes. Vocês estão-se nas tintas, tanto se lhes dá, já aderiram aquele lixo virtual, onde o antídoto seria o regresso às relações próximas e à família.



Milhares de nerds seguem as suas vidas artificiais, sem se darem conta que, estão cada vez mais fechados em casa,  o ar que  respiram já não é assim tão fundamental, os amigos são só para as ocasiões, uma espécie de double life,  que a coisa que visitam todos os dias, a horas não muito convenientes para a família, não é mais que uma sereia atraindo-vos à perdição e ao esquecimento. Ainda mais: essa coisa a que aderiram chamada por Mark Zuckerberg de Facebook, não é diferente de todas as outras que definem as regras do uso das redes sociais. Tudo o que dizemos nos pode ser retirado e posteriormente recauchutado, processado e vomitado noutras plataformas, mesmo que ainda não saibamos o que elas virão a ser.

Post Scriptum:
AS RADIAÇÔES QUE QUALQUER ADERENTE AO FACEBOOK RECEBE POR MINUTO DÁ PARA MATAR QUALQUER UM NO PRAZO DE ALGUNS ANOS: DEPENDE DAS HORAS DIÁRIAS QUE PASSE EM FRENTE AO COMPUTADOR.

Eh! Você não sabia desta , pois não?
Nunca dou boas notícias já dizia o outro.
Espero que leia este post até aio fim  e TOME CUIDADO.

O Nerd tem um negócio de milhões que pode  causar danos irreparáveis
no seu sistema  nervoso central, e outros sistemas que não vou enumerar.
Digo-lhe: se não sabe procure informar-se.
wifi diseases

Dores de cabeça ah pois é
Fadiga inexplicável ah pois é
Doenças oculares ah pois é
Tumor cerebral ah pois é
Anomalias em recem-nascidos ah pois é
Abortos inexplicáveis ah pois é
Dores musculares ah pois é
Dificuldade em andar ah pois é
Alterações de humor ah pois é
Doenças do coração ah pois é
POIS É...


sexta-feira, outubro 02, 2015

Um Dia...



um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas


Un Cheval de Race



Elle est bien laide. Elle est délicieuse pourtant!

Le Temps et l'Amour l'ont marquée de leurs griffes et lui ont cruellement enseigné ce que chaque minute et chaque baiser emportent de jeunesse et de fraîcheur.

Elle est vraiment laide; elle est fourmi, araignée, si vous voulez, squelette même; mais aussi elle est breuvage, magistère, sorcellerie! en somme, elle est exquise.

Le Temps n'a pu rompre l'harmonie pétillante de sa démarche ni l'élégance indestructible de son armature. L'Amour n'a pas altéré la suavité de son haleine d'enfant; et le Temps n'a rien arraché de son abondante crinière d'où s'exhale en fauves parfums toute la vitalité endiablée du Midi français: Nîmes, Aix, Arles, Avignon, Narbonne, Toulouse, villes bénies du soleil, amoureuses et charmantes!

Le Temps et l'Amour l'ont vainement mordue à belles dents; ils n'ont rien diminué du charme vague, mais éternel, de sa poitrine garçonnière.

Usée peut-être, mais non fatiguée, et toujours héroïque, elle fait penser à ces chevaux de grande race que l'oeil du véritable amateur reconnaît, même attelés à un carrosse de louage ou à un lourd chariot.

Et puis elle est si douce et si fervente! Elle aime comme on aime en automne; on dirait que les approches de l'hiver allument dans son coeur un feu nouveau, et la servilité de sa tendresse n'a jamais rien de fatigant.

Charles Baudelaire

foto thedaglab

quarta-feira, julho 01, 2015

c'est la musique Al Stewart - The Year of The Cat



On a morning from a Bogart movie
In a country where they turn back time
You go strolling through the crowd like Peter Lorre
Contemplating a crime
She comes out of the sun in a silk dress running
Like a watercolor in the rain

Don't bother asking for explanations
She'll just tell you that she came
In the year of the cat.
She doesn't give you time for questions
As she locks up your arm in hers
And you follow 'till your sense of which direction
Completely disappears

By the blue tiled walls near the market stalls
There's a hidden door she leads you to
These days, she says,
I feel my life Just like a river running through
The year of the cat

She looks at you so coolly
And her eyes shine like the moon in the sea
She comes in incense and patchouli
So you take her, to find what's waiting inside
The year of the cat.

Well morning comes and you're still with her
And the bus and the tourists are gone
And you've thrown away the choice and lost your ticket
So you have to stay on
But the drum-beat strains of the night remain
In the rhythm of the new-born day
You know sometime you're bound to leave her
But for now you're going to stay In the year of the cat.










quinta-feira, junho 25, 2015

morning whisper by Catliv on Behance
Cuéntamelo otra vez, es tan hermoso
que no me canso nunca de escucharlo.
Repíteme otra vez que la pareja
del cuento fue feliz hasta lá muerte,
que ella no le fue infiel, que a él ni siquiera
se le ocurrió engañarla. Y no te olvides
de que, a pesar del tiempo y los problemas,
se seguían besando cada noche.
Cuéntamelo mil vezes, por favor:
es la historia más bella que conozco.


Amalia Bautista

quarta-feira, junho 17, 2015

Prece - J'aime l'Amour comme La Dance

 Pina Bausch, Frühlingsopfer (Sagração da Primavera) Foto: Maarten Vanden Abeele

Eis que a ti me entrego
e a ti recebo.
É a unificação do nosso ser.
Que maior maravilha
pode haver
do que beijar-te a alma
o meu abrigo?
Deixa que a ternura
que em mim sentes
seja a estrada de sonho
em que caminhes
e caminhando tu
irei contigo.
Deixa pois que o infinito
seja o fim,
e que até lá
na doce comunhão do nosso amor
eu consiga a ventura
de te ter ao pé de mim.
Mesmo que as vagas
sejam muitas
eu vencerei distâncias.
e o marulhar bramindo
não será mais forte
do que os meus lábios
teus olhos cobrindo
ao cair da noite.

Deixa pois que me atreva
a ser superior à humanidade;
que subjugue o ciúme,
o tédio e o esquecimento
com a minha vontade.
Deslizarei bem junto a ti,
abraçarei os teus joelhos
e assim eu reinarei
submissamente.
Depois te contarei
os lindos sonhos
que para ti criei.
Consente amor
que a tua alma embale docemente,
que o frémito que existe
nos meus lábios
circule no teu sangue
e te mantenha o fogo
eternamente.

(kodak khrome)
in No fio da Navalha

 

sexta-feira, junho 12, 2015

Lembras-te?



Sobre mim desceram as tuas lágrimas
como orvalho em terra seca
e escaldante.
Senti-as sobre os meus cabelos
como ondas de luz
como beijos de paz.
Não vi teus belos olhos ao vertê-las
porque sentir foi mais que vê-las
e eu senti a imobilidade serena 
da tua presença junto a mim
ganhando em espírito,
abrandando a tensão já tão acumulada.
Lembras-te amor
A noite era estrelada
e em volta a ramaria
mantinha a imobilidade da expectativa
e nós na nossa casa
(hoje tão desprezada)
vivíamos a plenitude do amor
esquecendo e sonhando o impossível.
Recordas-te ainda
Eu que vivo para recordar
enchi a minha vida
dos mil e um segundos
que passei contigo
e com eles formei a linha divisória
que há entre mim e o mundo.
Para lá o destino sem memória
mais forte do que a morte
Para cá há o refúgio que és tu
e a recordação das tuas lágrimas
derramando bálsamos
sobre a minha cabeça tão cansada.
Lembras-te?

foto Peter Lindbergh

quarta-feira, junho 10, 2015

Epitáfio




Foto de Katia Chausheva, L'ultima Corrida

Para o meu lirismo para o meu desejo
Febre desesperada entontecida
Do que há mais indiferente pela vida
Do que há de mais ardente num só beijo

Para as águas em fúria onde velejo
E onde as bonanças vêm de fugida
Como epitáfio à hora da partida
Há um só que é possivel e antevejo

Aqui não jaz ninguém  morreu
Apenas hoje ontem ou que importa
Julgando que enterravam uma morta

Somente viram sob um plúmbeo céu
Já debruçados sobre a campa torta
Uma ave a sonhar que emudeceu

sexta-feira, junho 05, 2015

Alma Simples




Alma que nunca soube o que é pecar
Olhos em que jamais houve um pedir
Peito que nunca esteve p’ra explodir
Mãos que não se habituam a afagar

Rosto que envelheceu sem nunca amar
Lábios que não se atrevem a sorrir
Gente que sempre soube por onde ir
Mais lhes valera para sempre errar

Que loucuras, pecados e ideais
São nossa humanidade. É tudo amor.
É tudo vida, sim. Nada é baixeza.

Quando é feito de lágrimas, calor
Que Deus, se nos quisesse só pureza
Não nos daria um peito sonhador


Fotos Esmaeel Bagherian e  Katia Chausheva

quinta-feira, junho 04, 2015

Flor Garduño
No peevish winter wind shall chill
No sullen tropic sun shall wither
The roses in the rose garden which is ours and ours only  

T.S.Elliot

quarta-feira, junho 03, 2015

william adolphe bouguereau dante and virgil in hell
E enquanto os povos dormem os cães ladrando guardam o homem contra o próprio homem

Exodo XIV

quinta-feira, maio 28, 2015

Dói-me estar aqui sem ti

há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.
(roberto juarroz)

As janelas abrem-se 
o ar que respiro chama-se o teu nome
O vento sopra na mansidão da noite
o vento que acaricia chama-se o teu nome
O sol escalda igual ao teu sexo
o sol que abrasa chama-se o teu nome

O lugar onde existo sem ti
chama-se o teu nome.
Dói-me estar aqui sem ti.



Nagisa Oshima ( The Man Who Left His Own Film)

quarta-feira, maio 27, 2015

Banished from Camelot - Eu sei que não mentes...



Foto Greg Allum
sei lá quem sou?! sei lá? 
Ama-se quem se Ama e não quem se quer Amar. 
(Florbela Espanca)


Foto Thauh Nguyen


Eu sei que tu não mentes quando me olhas distante e te entristeces.
Quando me olhas assim. Como se tu quisesses, como se até quisesses.
Mas deixa lá, ainda às vezes te tenho ao pé de mim.
E depois, sabes, no teu olhar tão vago,
a confissão tão estranha
vem-te triste.

Que amor foi esse, que me não fechou os olhos,
me não estendeu os braços, que não me lançou no teu peito, que não disse:
Há padrões e há mundo?
Pois este, este é o meu.

Agora é tarde?
Eu sei que tu não mentes quando me olhas distante e te entristeces.

segunda-feira, maio 25, 2015

penso em ti - l'amour fou

Imogen Cunningham, Nude, 1923



empalidece-me de beijos
veste-me de desejos
à boca da noite viajo
neste fogo devaneio
e eis-me aqui
nome profano
chamas do poente
douram-me a cabeça
penso em ti


quarta-feira, maio 20, 2015

a explicação do absurdo



Nan Goldin
circulo nos teus braços a fome de outra amazona antiga feita em silêncios de viagem mergulho contigo em passos que parecem dizer dança, como se deixasse o remorso tomar de mim conta na violência dos gestos em alguma espécie de saudade. gestos físicos em jogo de animal a quem extirparam o veneno como se existisse um deus nesse corpo.

capa expressiva de mágico interlúdio lúdico onde as minhas penas se esqueciam, esquecendo o ponto da derrota logo adivinhada. jogo de mentira na verdade do sentir as penas adivinhadas.

até um dia em que Rimbaud cantou para mim os seus versos enfeitiçando-me.

desde aí meus acidentalmente nenhuma lua nova voltou a cantar e assinei os vales onde o sol fez greve. o dia em que Rimbaud me enfeitiçou.

tocados os dois pela divindade fomos trabalho de beleza no uso elementar das coisas com corpos expectantes e beijos luz a encher o quarto bebendo nas nossas bocas onde ambos eramos a fonte.

descemos os dois até ficarmos presos a esse espelho onde a imagem reflectida era  de nós como se fossemos outros, outros os corpos outros os rostos na pose de sermos um do outro ao abrigo do descanso de duplicidade, duplicidade  finalmente encontrada na explicação do absurdo.

o dia se fez noite a noite se fez dia e a sombra se fez casa.


domingo, maio 17, 2015

tout le reste je m'en fou



“He falls on her lap and lies there quivering like a toothache” 
Henry Miller, Tropic of Cancer

Coup de Foudre
un coup violent mais délicieux
une savoureuse blessure
on est inconscient
on ne peut plus réfléchir
on ne pense même plus
attaqué comme la foudre,
après quelques regards,
c'était le coup de foudre


aujourd'hui, à tes côtés, je vis l'amour fou,
j'en arrive même à dire que tout le reste je m'en fou 

quarta-feira, maio 13, 2015

O Presente Absoluto



Lucian  Stanculescu
Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes terem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.

Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.

Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.

António Ramos Rosa, 
in Antologia Poética

terça-feira, maio 12, 2015

A vida corre e corre, a vida passa








A vida corre e corre, a vida passa,
Nem sequer nos permite um sentimento.
A vida corre e corre, a vida passa,
E tudo se converte em pensamento.

A vida corre e corre, a vida passa,
Cada sorriso esconde um sofrimento.
A vida corre e corre, a vida passa,
Em toda a gargalhada há sofrimento.

Tudo o que é alegria mente e chora.
O olhar mais aberto, o olhar mais pronto,
A vestir-se de cor é triste. E implora

Uma réstia de sol que lhe faltou.
Que a vida é um perpétuo confronto,
Entre o que se viveu e se sonhou.
(kodak khrome)
aos 17 anos

quinta-feira, maio 07, 2015

Life is too short for shitty sex so go find someone who fucks you right



os meus lábios nos teus lábios são a prece 
na madrugada onde dois corpos se amam
os meus lábios nos teus lábios são a dor onde me deito
os meus lábios nos  teus lábios
são delito sem culpa formada crime paradigma de futuro
os meus lábios nos teus lábios
são promessa de transgressão letal som sem produzir som
os meus lábios nos teus lábios
são eu e tu e este amor sem cura nem dedicatória
o meu nome no teu nome
perdidos achados em canto pagão
nos teus lábios os meus lábios
são







Os pulhas sempre fumaram cigarros.
Prontos a disparar, recebem neles a morte
das felicidades perdidas, das vidas vazias sem amor.
Eis o seu castigo




A Rapariga dos Livros





Il tuo corpo, il mondo, corre.
I miei occhi, il mondo, anche.
Nessuno ama due volte con gli stessi occhi.
Gabriel Zaid

Não houve felicidade, não houve emoção que alguma vez tivessem podido suplantar a recordação que guardo daquela noite ao regressar do teatro.
Ao recapitular os acasos que tinham feito daquela noite a minha noite 

e dela a minha inconsciente cúmplice
















Entra por essa porta e vem sentar-te
aqui, como daquela vez em que te disse:
os vulcões são pirâmides de luz,
ou campos cheios de sol iluminado.

Terás morrido, sim, e tanto faz
se a sério, se a fingir, os outros o dirão.
Quanto a mim, és fenómeno de gelo
resistente a calor e primavera.

Entra então neste dia, que o sol
resiste ao brilho mais do que neste mês
lhe resistiu, e eu preciso de luz,
não se vê bem agora, é muito tarde,
as luzes nesta sala são baixas e cruéis.

Toma, uma cadeira boa (como a chama
que chega sinuosa): as formas são castanhas,
em perfeita esquadria, e as costas mais direitas
que um icebergue azul na vertical.

Talvez te diga: pirâmides de luz,
estes vulcões. Ou não.
Se eu não estiver, ou não estiveres em casa,
deixo um bilhete à porta, junto ao Hades,
na esperança de que o cão
o não destrua

ana luísa amaral



Da noite, da chuva, das danças sem igual,
Para ti os lábios que sorriam,
para ti o sorriso do anjo, complemento de corações
em fúrias e dorsos de cisnes.
Cada pulsar de coração, ameaça de fogo mais ardente,
cada segundo a eternidade,
o golpe feito onde uma flor caiu derramando água.
Tu és.